27 de setembro de 1949. Na cidade de Chaves, os ânimos estavam ao rubro por causa do futebol. O Flávia, um dos clubes locais, subiu à II Divisão. O Atlético Flaviense, o grande rival, ficou-se pelo terceiro escalão. No vai-não-vai até ao início da época, começaram reuniões entre dirigentes dos dois emblemas.
Durante meses, exigia-se uma solução: um só clube que representasse Chaves.
A noite em que dois rivais formaram o GD Chaves

Numa terça-feira à noite, no salão nobre dos Bombeiros Voluntários Flavienses, uma Assembleia Geral a abarrotar de fervorosos associados e adeptos viu ser colocado preto no branco o nascimento do mais icónico clube de Trás-os-Montes e um dos mais históricos do futebol nacional: o Grupo Desportivo de Chaves.
Entusiasmados, os oradores dessa reunião histórica eram interrompidos por constantes aplausos a cada linha do recém-criado clube.
Nos primeiros estatutos, ficou definida a camisola vermelha e calção azul, que se transformaria uns anos mais tarde no agora inconfundível azul-grená às riscas. O nome ficou fechado, tal como o emblema: duas chaves cruzadas com as letras G.D.C.
Depois veio a primeira direção. O presidente seria o militar Teodorico Palmeira, com o ‘vice’ José Guimarães e o secretário-geral Armando Falcão. Estas figuras históricas acompanhariam o Desportivo nos primeiros anos, sendo dos principais responsáveis pela primeira cobertura da bancada central do estádio, em 1959. A obra custou 80 contos – valor alto para a altura – pago com contributos de aficionados do Desportivo e sem custos para o clube.
Eram os primeiros passos do nosso Chaves. “Um clube só, mais forte e mais uno”, escreveu o Ecos de Chaves, pela pena do icónico cronista desportivo Espírito Santo.
O primeiro jogo do Desportivo

Ficou marcado para esse domingo o primeiro jogo do novíssimo Grupo Desportivo de Chaves. O estádio Municipal, na altura um pelado isolado paredes meias com o forte de S. Neutel, foi o palco da estreia, com uma multidão a encher a casa dos flavienses.
Pela frente estava o Sporting de Fafe, uma equipa de algum relevo na década de 40. A primeira equipa contava com jogadores como Amâncio, Mário Esteves, Gualter, Raimundo, Chico Barreira, Setas, Lila Geraldes ou Lelo da Tenda, que transitaram dos dois antigos clubes.
Os flavienses entraram com tudo e ao intervalo ganhavam por 2-0. Mas as baterias acabaram. Com poucos treinos realizados, não havia pernas para a segunda parte. Bandeira, icónico guardião transmontano que até esteve em vias de ir para o Celta de Vigo nessa época, defendeu o que pôde. Porém, não evitou os dois golos do Fafe, um deles de penálti.
Empatado 2-2, o jogo chegou à reta final, com vários adeptos a deixar já o estádio. A divisão de pontos parecia inevitável. Faltava um minuto para o fim. Num jogo de tanto sacrifício, saltou à vista o avançado-centro. Mário Esteves, histórico atleta, apareceu na frente e, a tentar esquecer o cansaço, rematou certeiro para o 3-2. Foi o herói da estreia do Desportivo de Chaves. Uma vitória para a história.